Analistas entendem que a economia suportou bem o início da segunda onda da pandemia

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,2% no primeiro trimestre ficou acima da mediana das estimativas de economistas, de 0,7%. Pode ser considerado um bom número, até porque, até meados de maio, as expectativas do Boletim Focus apontavam um recuo na comparação com o mesmo período do ano passado, e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou avanço de 1% nessa comparação, também acima do esperado.
Assim, a leitura é de que a economia resistiu bem ao início da chamada segunda onda da pandemia de covid-19 no país, que neste momento, pouco mais de dois meses depois, ainda produz quase dois mil mortos por dia.
Alguns pontos denunciam os estragos da pandemia. No lado da demanda, o consumo das famílias caiu 0,1% sobre o quarto trimestre, num período de aumento do desemprego e do desalento e de ausência do auxílio emergencial, que voltou apenas em abril.
Na oferta, a indústria de transformação, às voltas com aumento de custos e falta de insumos, caiu 0,5% na comparação com o quarto trimestre do ano passado, quando cresceu 4,7%. Mas o agregado “indústria” do PIB, porém, cresceu 0,7%, puxado pela indústria extrativa e pela construção.
PIB setorial
O segmento “outros serviços”, que chegou a cair 17% no segundo trimestre do ano passado, durante a primeira onda da doença, teve uma recuperação parcial no terceiro e quarto trimestres(com altas de 7,1% e 5,6%, na série com ajuste sazonal, respectivamente), mas ficou praticamente estável nos três primeiros meses deste ano. É ali onde estão pequenos os serviços, bastante ligados ao consumo das famílias, que representam cerca de 20% do PIB do setor e que empregam muita mão de obra.
No total, os sete segmentos que compõem o setor de serviços cresceram 0,4% no primeiro trimestre ante o último quarto de 2020, mostrando que, ao final, as restrições impostas à circulação na segunda onda afetaram menos essa parte do PIB do que no ano passado.
Ainda no lado da oferta, o PIB agropecuário se beneficiou de preços em alta nas commodities e uma produção recorde e cresceu 5,7%.
Analistas têm observado que, após um período ruim em abril, em meio ao colapso dos hospitais e números recordes da pandemia, houve uma volta mais forte da atividade em maio, algo que indicadores como as vendas por meio de cartão de crédito têm mostrado.
A confiança, indicador antecedente de atividade, também voltou a crescer. A economia parece ter resistido a mais uma onda no período, o que levou muita gente a reajustar as estimativas para o PIB deste ano.
A ameaça no horizonte – além de todas as demais já colocadas (inflação, risco fiscal, terceira onda etc.) – pode ser a crise hídrica, que pode afetar de forma relevante a oferta de energia e, por extensão, a economia, ainda este ano. Saber como estará a atividade ao fim de 2021, se melhor, se pior, ainda é uma corrida de muitos obstáculos.
Fonte: Por Ana Conceição, Valor /SUPERHIPER